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21/03/2023
A área plantada das cultivares de açaizeiro ( Euterpe oleracea ) para terra firme aumentou pela pesquisa agropecuária aumentou 675% nos últimos 12 anos, indica estudo controlado pela Embrapa . Com sementes de qualidade genética superior e práticas de manejo seguido, o cultivo do açaizeiro fora das áreas de várzea se expande na Amazônia e em outras regiões do Brasil e aumenta a oferta de frutos ao mercado. Efeitos positivos sobre a geração de renda nas propriedades agrícolas, na qualidade do solo e na conservação da biodiversidade também são registrados.
O monitoramento da adoção de tecnologias analisou as cultivares BRS Pará e BRS Pai d'Égua , lançadas, respectivamente, em 2005 e 2019. Essas cultivares são únicas no mundo para o plantio do açaizeiro em terra firme, uma vez que a palmeira é natural das áreas de várzea. O trabalho mostra que em 2010 havia no Brasil, principalmente no estado do Pará, 6.886 hectares de açaizeiro plantados com a cultivar BRS Pará. Em 2022, com as duas cultivares disponíveis no mercado, uma área saltou para 53.374 hectares (39.800 hectares da BRS Pará e 13.574 hectares da BRS Pai d'Égua).
Pará, Amazonas, Maranhão, Rondônia, Bahia, Amapá e Roraima são os estados que mais se destacaram na adoção das tecnologias, de acordo com o monitoramento. “A estimativa de adoção é continuada a partir da percepção de sementes e mudas pela empresa licenciada pela Embrapa”, explica o economista Aldecy Moraes , analista da Embrapa Amazônia Oriental . A conta considera plantios de 400 plantas por hectare em espaçamento de 5 por 5 metros, de acordo com as recomendações da pesquisa. O trabalho considera, ainda, uma porcentagem de perdas (50% para 1 quilograma de sementes e 20% a 30% para mudas para 1 hectare plantado) e os resultados são validados junto aos produtores da região.
O monitoramento da adoção de tecnologias, segundo o analista Renato Castro, da área da Transferência de Tecnologia da Embrapa Amazônia Oriental, além de verificar o grau de sucesso das soluções desenvolvidas pela pesquisa, “traz um olhar mais rico, através dos diversos indicadores analisados, dos motivos pelos quais a tecnologia está sendo ou não aceita pelo produtor. Quando esses dados são tratados, consolidados e analisados, retroalimentam o sistema de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Empresa”, acrescenta.
O trabalho complementa a Avaliação de Impacto de Tecnologias, metodologia consolidada pela Embrapa e que avalia os impactos energéticos, sociais e ambientais das tecnologias desenvolvidas pela pesquisa. Profissionais de quatro Unidades da Embrapa na região Norte ( Amazônia Oriental , Amazônia Ocidental , Amapá e Roraima ) participaram da avaliação.
Crescimento da produçãoEntre as culturas perenes produzidas no Brasil, como café, laranja, cacau e dendê, o crescimento da produção de açaí ganha destaque nos últimos anos. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ( IBGE ) monitora essa produção desde 2015 e considera tanto o açaí manejado das áreas de várzea quanto o cultivado. A área colhida no Brasil cresceu quase 72 mil hectares, saindo de 136 mil hectares em 2015 para 208 mil hectares em 2021. E, no mesmo período, a produção nacional saltou de 1 milhão de toneladas para 1 milhão e 485 mil toneladas. O valor da produção também cresceu nos últimos anos. Só no estado do Pará, o açaí movimentou, em 2021, mais de 5 bilhões de reais, negócio que atrai pequenos, médios e grandes produtores |
O agricultor Paulo Renê Alves da Silva ( foto à esquerda ), de Marabá, na região Sudeste Paraense, planta açaí desde 2012 e, atualmente, tem 15 hectares na propriedade com as cultivares da Embrapa BRS Pará e BRS Pai d'Égua. “O açaí traz estabilidade financeira para os pequenos agricultores porque é uma cultura perene, de alto consumo e mercado garantido”, afirma o agricultor.
O maior desafio de Silva foi a falta de conhecimento em torno do manejo do cultivo no início da atividade. Com a consolidação do sistema de produção, ele vem ampliando sua área ano a ano com a BRS Pai d'Égua. “É um bom negócio para o pequeno produtor sim, é um produto que o paraense sempre vai consumir”, acredita.
Semente genética de qualidade é um dos quesitos fundamentais para uma boa produtividade, segundo o agricultor Cid Ornela, de Capitão Poço, região Nordeste Paraense. Com mais de 100 hectares de açaizeiro cultivados em terra firme, ele destaca que o trabalho de melhoramento genético desenvolvido pela Embrapa já gerou materiais de qualidade superior, como a BRS Pai d'Égua.
O agricultor, que é técnico em agropecuária há 40 anos, planta açaí há cerca de 15 anos e amplia sua produção anualmente. Entre os principais desafios da atividade, Ornela destaca que é preciso conhecer melhor a demanda nutricional do açaizeiro. “Precisamos entender com maior precisão quais elementos o açaí extrai do solo e em qual quantidade”, observa.
Para ele, a viabilidade econômica da atividade ao longo do tempo só será garantida com o aumento de produtividade. “Os custos da cultura são elevados, o produtor precisa produzir 40% da produção anual no primeiro semestre, período de entressafra quando o preço do fruto aumenta, e 60% no segundo semestre, para manter um preço médio viável. O mercado é imenso, mas é preciso investir em manejo e produtividade”, acrescenta.
O efeito positivo sobre a geração de renda nas propriedades agrícolas é também um dos resultados da adoção da tecnologia BRS Pará, de acordo com o estudo de Avaliação de Impacto. “Vimos que a adoção da cultivar proporciona benefícios em relação aos indicadores de segurança e estabilidade decorrente do aumento da produtividade e também da grande demanda pelo produto e do preço no mercado”, enfatiza Aldecy Moraes.
A avaliação mostrou que o benefício econômico da pesquisa para as preservação dos resultados foi de, aproximadamente, 201 milhões de reais, decorrente principalmente da estabilidade do preço do produto e da redução da área de adoção com a solução tecnológica.
Melhoramento genético para o cultivo em terra firme
A Embrapa Amazônia Oriental trabalha com o melhoramento genético do açaizeiro desde a década de 1990 para ampliar a produção dessa palmeira nativa das áreas de várzea. A trajetória da pesquisa resultou nas duas únicas cultivares do mundo recomendadas para terra firme. “Trata-se de uma contribuição muito relevante da pesquisa para a produção de açaí no Brasil. Nos últimos anos, a demanda pelo fruto cresceu num ritmo muito mais acelerado que a oferta. Então, migrar para terra firme foi uma das soluções encontradas pela pesquisa”, explicou o pesquisador João Tomé de Farias Neto , do mesmo centro de pesquisa.
O processo de domesticação da espécie envolveu coletas de plantas em diferentes regiões do Pará, estabelecimento de áreas experimentais, cruzamentos e sucessivos ciclos de safras para seleção das melhores plantas. A BRS Pará, lançada em 2005, foi a primeira cultivar de açaizeiro de terra firme do Brasil, desenvolvida para características como porte mais baixo da planta, produção precoce de frutos, maior produtividade e rendimento de polpa.
O aprimoramento e o avanço do conhecimento em torno dessa palmeira fizeram com que a pesquisa desse mais um passo no processo de domesticação e em 2019 foi lançada a BRS Pai d'Égua, cultivar de açaí irrigado para terra firme. Uma das principais características é a distribuição bem equilibrada da produção anual. Com irrigação e manejo adequado, a cultivar produz 40% no período da entressafra (de janeiro a junho) e 60% na safra (de julho a dezembro). Além disso, a cultivar apresenta frutos ainda menores que a antecessora com maior rendimento de polpa, em torno de 30%, em relação aos frutos atualmente utilizados na agroindústria.
Mesmo com o avanço da produção em terra firme, a maior oferta de frutos ao mercado -- em torno de 90% -- ainda vem das áreas manejadas de várzea. Os riscos ambientais sobre esse ecossistema causados pelo aumento da demanda de mercado preocupam especialistas na Amazônia. Para o pesquisador Alfredo Homma , também da Embrapa Amazônia Oriental, a ajuda dessa produção deve aproveitar áreas já abertas ou degradadas. “A várzea é um ecossistema frágil e a expansão da produção deve migrar para a terra firme”, afirma Homma.
O estudo de avaliação de impacto da BRS Pará mostrou efeitos positivos na qualidade do solo e conservação da biodiversidade em função da adoção da cultivar. Segundo o agrônomo Enilson Solano Albuquerque Silva , da área de Transferência de Tecnologia da Embrapa Amazônia Oriental, um dos autores do estudo, isso decorre pela incorporação de áreas antropizadas de terra firme ao sistema produtivo, o que resulta na redução do processo de geração com a implantação de cultivo perene, na recuperação da fertilidade do solo e no aumento de matéria orgânica e da fauna silvestre nos cultivos que, muitas vezes, estão associados a outras culturas ou em sistemas agroflorestais.
A área da família do agricultor Márcio Hiramizu, em Tomé-Açu, na região Nordeste Paraense, é uma prova de como o cultivo do açaizeiro pode ser integrado a outras culturas e atividades. O plantio de açaí foi iniciado em 1996 ainda com o pai, Shigeru Hiramizu, imigrante japonês. No local, além do cultivo isolado, há o cultivo integrado a outras culturas frutíferas e florestais, em sistemas agroflorestais.
Nos 55 hectares de açaizeiro, ele cultiva a BRS Pará e já iniciou a renovação do plantio com a BRS Pai d'Égua. “O grande diferencial é a produção na entressafra quando o preço do fruto é mais atrativo ao produtor”, conta. Hiramizu relata, ainda, que ele e o pai quase desistiram do plantio de açaí. “Antes de o açaí ser famoso no mercado, nós quase derrubamos todas as plantas para vender o palmito a um comprador de fora do estado, mas logo o preço do fruto começou a subir e desistimos”, relembra o agricultor.
Atualmente, a propriedade dele também é utilizada como área experimental para o desenvolvimento de pesquisas relacionadas à polinização do açaizeiro. Ele mantém a vegetação no entorno do plantio e caixas de abelhas nas áreas de produção para melhorar a polinização da palmeira.
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Fonte: Embrapa Amazônia Oriental