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02/07/2026
O Plano Safra 2026/27, anunciado pelo Governo Federal na última terça-feira (30), recebeu uma série de críticas de entidades representativas do agronegócio brasileiro, que consideram insuficientes as medidas apresentadas para enfrentar os principais desafios do setor. Embora reconheçam avanços pontuais, como a redução das taxas de juros e o reforço de algumas linhas de investimento, as organizações avaliam que o programa deixa lacunas importantes em temas como endividamento rural, seguro agrícola, acesso ao crédito e previsibilidade da política agrícola.
O governo anunciou R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, valor 1,7% superior ao disponibilizado na temporada anterior. No entanto, representantes do setor argumentam que o aumento não recompõe sequer a inflação acumulada no período, além de não contemplar demandas históricas dos produtores.
O economista chefe da Farsul (Federação de Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul), Antônio da Luz, explica que o total dos recursos anunciados em Brasília contém ainda o valor das CPRs (Cédula de Produto Rural), as quais não podem ser classificadas como crédito efetivamente.
"Uma coisa é crédito. Crédito é uma dívida, mas nem toda dívida é crédito (...) Então, o Governo está pegando o que o produtor lança e colocando na conta do Plano Safra, o que é uma coisa completamente mentirosa e absurda", explica. Há menos recursos para custeio, comercialização e investimentos, enquanto as CPRs cresceram 8%. "As CPRs já são o maior funding daquilo que o Governo anuncia - R$ 185 bilhões - e esse é um truque que está acontecendo pelo terceiro ano consecutivo", afirma Da Luz.
O economista explica ainda que do total, considerando as baixas que as principais linhas de crédito apresentaram, o valor total é 5% menor. "O Governo anuncia uma coisa e executa outra", diz.
Para a Famato (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso), o plano trouxe avanços importantes, especialmente na redução dos juros do custeio, que passaram de 14% para 12,5% ao ano. Ainda assim, a entidade considera o volume insuficiente para atender às necessidades da agropecuária nacional.
Segundo o superintendente da entidade, Cleiton Gauer, o crescimento dos recursos ficou abaixo da evolução dos custos de produção e da demanda por crédito. A federação também destaca que boa parte dos produtores segue enfrentando dificuldades para acessar as linhas oficiais, principalmente em estados de grande escala produtiva como Mato Grosso.
A Famato afirma que a política agrícola continua sem respostas efetivas para questões estruturais, como a atualização dos critérios de enquadramento do Pronaf e do Pronamp, o fortalecimento do seguro rural, a ampliação das linhas de investimento e a renegociação das dívidas acumuladas nos últimos ciclos.
Críticas à composição dos recursos
A composição dos recursos anunciados também gerou questionamentos.
A Frente Parlamentar da Agropecuária argumenta que o crescimento do Plano Safra foi impulsionado pela inclusão de recursos destinados a investimentos, enquanto o crédito voltado ao custeio e à comercialização, considerado essencial para a produção, sofreu redução.
A Aprosoja Mato Grosso fez avaliação semelhante. A entidade destaca que, embora o montante total tenha aumentado cerca de R$ 9 bilhões, o orçamento para custeio e comercialização foi reduzido em quase R$ 30 bilhões.
Na avaliação do presidente da associação, Lucas Costa Beber, que hoje também preside a Aprosoja Brasil, o resultado é um cenário de crédito mais restrito justamente para financiar o plantio, a condução das lavouras e a comercialização da produção. A entidade também calcula que o aumento nominal de 1,7% ficou abaixo da inflação acumulada de 4,4%, o que representaria uma redução real dos recursos disponíveis para o setor.
Do total anunciado em Brasília, R$ 428 bilhões não recebem subsídio e, por isso, não passam pelo mecanismo de equalização de juros. Isso chega para, apenas, R$ 97 bilhões. Ou seja, são apenas pouco mais de 18% dos recursos com juros controlados, contra 22% do Plano Safra 2025/26. "Este Plano Safra diminui a parte em que o governo realmente atua, com recursos do Tesouro, e aumentou os valores em que ele não atua, que dependem do produtor que não tem crédito nas instituições financeiras, que precisa de CPR para resolver seu problema de crédito. São quase R$ 17 bilhões a menos equalizados".
Ainda como analisa o economista, o impacto não é apenas sobre o volume de recursos menor com juros controlados, como a composição dos recursos feito pelo produtor resultando em taxas que, ao final, serão mais elevadas. "Esta é mais uma pegadinha deste Plano Safra".
Endividamento se consolida como principal preocupação
Entre os pontos mais recorrentes nas manifestações das entidades está o elevado nível de endividamento dos produtores rurais, o que os limita ainda mais no acesso ao crédito.
A Faesp (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo) avalia que o principal problema do setor não está apenas no volume de recursos disponibilizados, mas na ausência de medidas concretas para enfrentar o passivo financeiro acumulado nas propriedades rurais. De acordo com a entidade, muitos produtores mantêm patrimônio e capacidade produtiva preservados, mas convivem com fluxo de caixa comprometido por custos elevados, juros altos, perdas climáticas e restrições de crédito. Nesse cenário, novos financiamentos tendem a ampliar a pressão financeira em vez de estimular investimentos.
A mesma preocupação foi destacada pelo coordenador do Conselho do Agronegócio da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Cesário Ramalho. Para ele, o principal desafio não é a oferta de recursos, mas a capacidade dos produtores de acessá-los. “O produtor estará apto, terá capacidade para contratar o financiamento? É preciso uma solução que dê fôlego ao produtor, caso contrário, o crédito ficará inacessível”, alertou.
A avaliação também é compartilhada pelo Sistema Faep, do Paraná. A entidade argumenta que, em um ambiente de margens apertadas, sucessivas perdas climáticas e elevado endividamento, a disponibilidade de recursos perde relevância se as linhas permanecerem pouco atrativas ou inacessíveis.
Seguro rural aparece como uma das maiores lacunas
Outro ponto que unificou as críticas das entidades foi a falta de reforço ao seguro rural. Famato, Faesp, Faep, Aprosoja Mato Grosso e, principalmente a FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária) apontaram preocupação com a fragilidade do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), considerado fundamental diante do aumento da frequência de eventos climáticos extremos.
A Famato defendia a destinação de R$ 3 bilhões ao programa, enquanto o Sistema Faep propunha orçamento de R$ 4 bilhões. Nenhuma das entidades considera que o seguro tenha recebido a atenção necessária dentro da política agrícola. Para a Faesp, a cobertura segue limitada a uma pequena parcela da área cultivada, mantendo produtores excessivamente expostos a secas, enchentes, geadas e incêndios. Já a FPA afirma que os sucessivos contingenciamentos reduziram a abrangência do programa e que a cobertura estimada para a próxima safra pode ser a menor da última década.
“Em vez de reforçar a proteção de quem produz, o governo reduz um dos principais instrumentos de segurança para o campo. Sem Seguro Rural, o produtor fica mais vulnerável. O endividamento cresce, os investimentos caem e a conta pode chegar ao consumidor, com alimentos mais caros e menor segurança no abastecimento”, afirmou a FPA por meio de uma nota nas redes sociais.
Falta de previsibilidade e política de longo prazo
As críticas não se limitaram aos números do programa.
Faesp, Cesário Ramalho e FPA defenderam a necessidade de uma política agrícola permanente e com horizonte de longo prazo. Segundo a Faesp, produtores seguem dependentes de anúncios anuais sem conhecer previamente condições de financiamento, limites de crédito ou disponibilidade efetiva dos recursos, o que dificulta decisões de investimento que muitas vezes exigem planejamento de vários anos. Ramalho reforçou que a dependência de um plano renovado a cada safra reduz a previsibilidade e aumenta a insegurança para quem produz.